Este é o primeiro texto de um projeto que já vem sendo desenhado há algum tempo: trazer um ponto de vista sobre os assuntos que fazem parte do nosso dia a dia, indo além da notícia e buscando entender o que está por trás de cada fato. Mundo Aberto, Os fatos, os contextos e o que vem depois.

O Brasil abriu a porta para as bets, regulamentou o mercado e agora pode decidir fechá-la. Em poucos anos, as apostas esportivas deixaram de ser uma atividade pouco explorada para ocupar espaço no futebol, na publicidade, nas redes sociais e, principalmente, no celular de milhões de brasileiros.

Agora, o governo Lula prepara uma medida provisória para acabar com as apostas esportivas e os jogos on-line. A justificativa está concentrada em três pontos: saúde pública, endividamento das famílias e proteção de consumidores considerados mais vulneráveis.

A mudança de direção chama atenção porque o próprio Brasil passou pelo caminho contrário recentemente. As apostas esportivas de quota fixa foram legalizadas em 2018. Em 2023, a legislação foi ampliada para incluir os jogos on-line e estabelecer regras para o funcionamento do setor. O mercado regulado começou efetivamente em janeiro de 2025.

Em outras palavras, o país levou anos para construir um sistema de regulamentação e pode agora decidir abandoná-lo.

O problema que chegou ao celular

A discussão ganhou outra dimensão quando apostar deixou de exigir um deslocamento até uma casa de apostas ou a compra de um bilhete. Hoje, basta um celular.

O Ministério da Saúde passou a tratar o jogo problemático como uma questão de saúde pública. A pasta alerta que o comportamento compulsivo pode provocar prejuízos financeiros, problemas familiares e impactos na saúde mental.

O risco está justamente na facilidade de apostar novamente. Uma perda pode estimular uma nova tentativa de recuperar o dinheiro. Depois outra. E outra.

Para quem consegue manter o controle, pode ser apenas entretenimento. Para quem desenvolve comportamento problemático, a mesma ferramenta pode se transformar em um ciclo de perdas.

É nesse ponto que aparece o principal argumento para o endurecimento da legislação: reduzir a oferta poderia diminuir a exposição de parte da população a esse tipo de risco.

Mas existe uma pergunta que acompanha qualquer tentativa de proibição: o que acontece com quem continuar querendo apostar?

A aposta que pode migrar para a ilegalidade

Acabar com as empresas autorizadas não significa necessariamente acabar com as apostas.

O mercado clandestino já existe e é alvo de operações e bloqueios do governo. Sem a estrutura do mercado regulado, o consumidor pode acabar migrando para plataformas ilegais, muitas delas fora da jurisdição brasileira.

Nesse cenário, o Estado perde justamente uma das ferramentas que criou ao regulamentar o setor: a capacidade de estabelecer regras, fiscalizar operadores e impor mecanismos de proteção ao apostador.

A proibição, portanto, pode resolver parte do problema, mas também cria um novo desafio: impedir que o mercado ilegal ocupe o espaço deixado pelas empresas autorizadas.

A conta chega ao futebol

Há ainda uma consequência que ultrapassa o apostador.

As bets passaram a ocupar um espaço importante no futebol brasileiro. Empresas do setor patrocinam clubes, competições e programas esportivos, além de investirem em publicidade e campanhas com influenciadores.

O dinheiro das apostas entrou em uma cadeia que envolve muito mais gente do que quem coloca dinheiro em uma plataforma.

Uma eventual proibição mexe nessa engrenagem e abre outra discussão: como clubes, atletas, produtores de conteúdo e empresas de comunicação irão substituir essa fonte de receita?

Não é uma questão menor. O setor de apostas se tornou parte da economia que se formou ao redor do esporte.

E a eleição entra onde?

Entra justamente porque a medida chega em um momento politicamente sensível.

A decisão de acabar com as bets será tomada na reta final da eleição presidencial. Isso significa que, além de uma discussão sobre saúde, economia e regulação, o tema também terá uma dimensão eleitoral.

O governo poderá apresentar a medida como proteção das famílias e combate ao endividamento. Adversários poderão questionar os efeitos econômicos da proibição e defender a manutenção de um mercado regulado.

Flávio Bolsonaro poderá explorar esse espaço caso adote uma posição contrária ao fim das bets, especialmente entre setores ligados ao futebol, influenciadores e consumidores de apostas.

Isso não significa que esses grupos tenham uma posição política única. Significa que existe um público diretamente afetado pela mudança e, consequentemente, um novo campo de disputa no debate eleitoral.

De quem foi a ideia de criar esse mercado?

Essa é uma parte importante da história.

As apostas esportivas foram legalizadas em 2018, durante o governo Michel Temer. A regulamentação mais ampla veio em 2023, já no governo Lula.

O mercado, portanto, não pertence exclusivamente a um governo ou a um partido. Ele é resultado de decisões tomadas em momentos políticos diferentes.

O que muda agora é a avaliação sobre seus efeitos.

Depois de permitir, regulamentar e fiscalizar, o governo federal passou a defender uma mudança de direção diante dos impactos observados sobre famílias e consumidores.

E talvez essa seja a pergunta mais importante de toda essa história: o Brasil descobriu tarde demais que regulamentar não era suficiente?

A resposta ainda não está dada.

O fim das bets pode reduzir a exposição de parte da população às apostas e dificultar o acesso de pessoas vulneráveis. Também pode provocar impactos sobre o futebol, a publicidade e o mercado de entretenimento.

E existe ainda o desafio de combater as plataformas clandestinas.

Por isso, a discussão não termina na assinatura de uma medida provisória.

O Brasil abriu esse mercado em 2018, ampliou sua regulamentação em 2023 e colocou as regras em funcionamento em 2025. Agora, pode tentar fechá-lo.

A questão é saber se o fim das bets significará, de fato, o fim do problema ou apenas a mudança do lugar onde ele acontece.


Por Vinicius Rezende